O conhecimento sobre gagueira apresentado pelos pais de crianças gagas: senso comum*
Taís Ciboto; Ana Maria Schiefer

RESUMO

Diante de conhecimentos científicos tão díspares a respeito da gagueira, neste trabalho buscamos investigar que tipo de informações os pais de crianças diagnosticadas como gagas tinham a respeito desta patologia e o quanto estas informações estão próximas do senso comum ou do conhecimento científico.

Para tanto, selecionamos 15 sujeitos acompanhantes de crianças de 7 a 12 anos de idade, que foram submetidas à avaliação fonoaudiológica e diagnosticadas como portadoras de gagueira, no Ambulatório dos Distúrbios da Comunicação Humana da UNIFESP, no período de fevereiro a novembro de 2000.

Recolhemos inúmeras impressões de pais de crianças com gagueira e, a partir destes relatos espontâneos elaboramos um questionário (em anexo) com 12 perguntas, sendo 9 com respostas fechadas (sim ou não) e 3 abertas (dissertativas), que se fundamentaram no conhecimento de senso comum sobre gagueira.

A partir da análise dos resultados obtidos durante a execução deste trabalho, podemos concluir que:

- a maior parte dos acompanhantes de crianças de 7 a 12 anos de idade, que foram submetidas à avaliação fonoaudiológica e diagnosticadas como portadoras de gagueira, no Ambulatório dos Distúrbios da Comunicação Humana da UNIFESP, no período de fevereiro a novembro de 2000, foram do sexo feminino, com idade entre 31 a 40 anos e que exerciam ocupações manuais especializadas, semi- especializada e não especializada ou cargos de rotina não manuais;

- houve um predomínio de respostas ligadas ao conhecimento do senso comum sobre gagueira, uma vez que a maioria dos entrevistados não tem dúvida em afirmar que seu filho é gago, mesmo antes de ter conhecimento do diagnóstico real, consideram que a gagueira pode ser um comportamento aprendido através de imitação, acham que o nervosismo não é a causa da gagueira, mas pode piorá-la, afirmam que a gagueira não é uma doença, mas tem cura; acham que a gagueira não é um problema herdado geneticamente e que não pode afetar a inteligência de seus filhos e que o problema de fala apresentado pela criança não acontece por culpa dos pais. Referiram ainda que, em alguns casos a gagueira pode ser desencadeada por fatores ambientais, físicos ou psicológicos e que seus filhos sofrem preconceito devido a gagueira.

Diante disso, vemos a importância e a necessidade real de que o fonoaudiólogo seja um agente transmissor do conhecimento científico que possui a respeito da gagueira a fim de tirar desta patologia a imagem socialmente negativa que carrega, quebrando os mitos e orientando sobre as informações de senso comum que tanto prejudicam o gago e seus familiares.

INTRODUÇÃO


A gagueira é uma desordem da fluência da fala que possui muitas definições e pouco consenso na literatura há muitos anos. Barbosa & Chiari (1998) constataram que o estudo dos distúrbios da fluência da fala parece não atrair a atenção da maioria dos fonoaudiólogos. Apesar do grande número de autores estrangeiros que se dedicam a investigar a gagueira, esse campo é ainda pouco explorado pelos pesquisadores brasileiros. Além disso, há um preconceito contra a gagueira e o indivíduo “gago”, que surge do tecido social e impregna o conhecimento do senso comum, gerado a partir do padrão coletivo do comportamento. Tal preconceito não está preso apenas a uma visão distorcida sobre este distúrbio de fala, mas, objetivamente, a peculiaridades do corpo de conhecimento hoje existentes sobre gagueira, em que nem sempre é possível discriminar entre o que é influência da informação científica daquela do senso comum.

Muitos já a estudaram, mas muitas perguntas ainda estão sem resposta. O que causa a gagueira ? Como ela ocorre no cérebro do indivíduo ? Que tipo de alterações provoca em seu comportamento ? As respostas para essas perguntas são diversas, mas nenhuma é categórica.

A definição de gagueira fornecida pela Organização Mundial de Saúde (1977) e comentada por Andrews, Craig, Feyer, Haddinott, Neilson & Howie (1983) é a seguinte: “Distúrbios no ritmo da fala, nos quais o indivíduo sabe precisamente o que deseja dizer, porém, ao mesmo tempo é incapaz de dizê-lo, devido a um prolongamento involuntário repetitivo ou a cessação de um som.”
Wingate (1978) considerou a gagueira como um “defeito de transição fonética”.
Bloodstein (1981) afirmou que gagueira é aquilo que é percebido por um observador confiável e que possui relativa concordância com outros.

Homzie & Lindsay (1984) demonstraram em suas descobertas sinais que indicam uma base orgânica para a gagueira.
Boone & Plante (1994) afirmaram que a gagueira é a repetição e o prolongamento involuntários de sons e sílabas que o indivíduo se esforça para eliminar.

O DSM – IV (1995) define a gagueira como um transtorno da comunicação cuja característica principal é a perturbação na fluência e no padrão temporal normais da fala inapropriada para a idade do indivíduo.

Schiefer (1999) considerou a gagueira como um distúrbio da fluência da fala, muito complexo, que afeta pessoas independentemente da idade, sexo, cultura e raça. É de difícil definição, mas a maioria dos ouvintes sabe quando alguém está gaguejando.
Diante de conhecimentos científicos tão díspares, neste trabalho buscamos investigar que tipo de informações os pais de crianças diagnosticadas como gagas tinham a respeito desta patologia e o quanto estas informações estão próximas do senso comum ou do conhecimento científico.

LITERATURA

Apresentaremos a seguir um breve resumo da literatura relacionada ao tema desta pesquisa. Os autores são apresentados em ordem cronológica.

Hutchinson (1960) analisou a distribuição das ocupações da população da cidade de São Paulo em seis categorias que variavam de ocupações manuais mais simples e não especializadas até profissões liberais e altos cargos administrativos.
Brutten & Shoemaker (1967) observaram que os gagos tornam-se apreensivos quanto a gaguejar em determinadas situações particulares e a apreensão intensifica a estimulação do sistema nervoso autônomo, resultando numa ruptura da fluência.
Wingate (1978) considerou a gagueira como um “defeito de transição fonética”, caracterizada por repetições e prolongamentos silenciosos ou audíveis. Estas características refletem uma incapacidade temporária de passar para o som seguinte.
Bloodstein (1981) afirmou que gagueira é aquilo que é percebido por um observador confiável e que possui relativa concordância com outros.

Andrews et al. (1983) comentaram a definição de gagueira fornecida pela Organização Mundial de Saúde (1977), entendendo gagueira como “distúrbios no ritmo da fala, nos quais o indivíduo sabe precisamente o que deseja dizer, porém, ao mesmo tempo é incapaz de dizê-lo, devido a um prolongamento involuntário repetitivo ou a cessação de um som.”
Cox, Seider & Kidd (1984) pesquisaram o relacionamento entre o fator genético da gagueira e alguns fatores ambientais. Analisaram um grupo de gagos e suas famílias e não observaram diferenças significantes quanto ao nível de ansiedade e das atitudes familiares investigados neste indivíduos. Concluíram que estes aspectos não contribuem causalmente para o desenvolvimento da gagueira.

Homzie & Lindsay (1984) observaram que a relação entre homens e mulheres com gagueira é aproximadamente de 3,4:1; a incidência na população em geral é de mais ou menos 1%; a porcentagem dos que apresentam gagueira temporária é de 4 a 5%; a idade de início é de 18 meses a 2 anos e 95% dos gagos começam a apresentar problemas de comunicação até os 7 anos; 4 de cada 5 gagos recupera-se na puberdade; a incidência de gagueira nas famílias de gagos é muito maior do que na população em geral. As implicações destas descobertas parecem conduzir inevitavelmente a uma base orgânica para a gagueira.
Jakubovicz (1986) observou que o autoconceito do ser humano é resultante das reações e avaliações das pessoas que têm um papel importante na nossa vida como: parentes, amigos, pais, colegas, empregados, patrões, etc. Muito do comportamento gago é baseado nesta avaliação. Se os pais reagem às disfluências do filho com ansiedade e rejeição, a criança vai desenvolver comportamento de luta e de evitamento, indicando que ela aceitou o julgamento.

Barbosa (1991) investigou a manifestação do preconceito contra a gagueira e o indivíduo gago em estudantes de Fonoaudiologia, através de sua concordância ou não com o enunciado de 13 afirmações a respeito do assunto. Concluiu que o preconceito social contra a gagueira e o indivíduo gago também se manifesta em estudantes de Fonoaudiologia, independente do grau de informação que possuam sobre a gagueira, por basear-se no conhecimento de senso comum.

Schiefer, Chiari & Barbosa (1992) afirmaram que os pais possuem muitas expectativas em relação ao desenvolvimento e crescimento dos filhos. Algumas delas relacionadas a como seus filhos irão falar projetivamente em idade escolar, não aceitando possíveis quebras do ritmo da fala como inerentes ao processo de desenvolvimento. Alguns pais aparentemente não percebem estes tropeços normais na fala de seus filhos, enquanto que outros reagem significativamente. Uma vez que essas quebras no ritmo da fala sejam rotuladas como gagueira, a criança procurará superá-las esforçando-se para agradar aos pais. As reações emocionais evocadas por essa situação, somadas ao esforço para falar melhor, poderão interferir na sua condição motora da fala, ocasionando alterações tônicas e respiratórias, que favorecem o aparecimento dos bloqueios, repetições, hesitações e prolongamentos.

Ambrose, Yairi & Cox (1993) estudaram o componente genético na gagueira por meio da história familiar positiva de gagueira, principalmente em homens. Verificaram ainda que a ocorrência da gagueira foi consideravelmente maior em parentes de 1º grau, quando comparados com familiares de 2º ou 3º grau.

Boone & Plante (1994) afirmaram que a fala dos gagos, com freqüência caracteriza-se por mudanças de duração e alterações de velocidade e ritmo, com interrupções freqüentes de fluência suave entre um som e outro.

O DSM – IV (1995) definiu a gagueira como um transtorno da comunicação cuja característica principal é a perturbação na fluência e no padrão temporal normais da fala inapropriada para a idade do indivíduo.

Andrade (1997) afirmou que a gagueira, em termos epidemiológicos, tem o seguinte perfil: é uma patologia encontrada em todas as culturas e línguas; é mais freqüente em homens que em mulheres, numa razão mais coerentemente aceita de 3,5/1; sua taxa de ocorrência na população é de 4%; sua distribuição por idade de surgimento é de 27% até os três anos de idade, 68% entre três e sete anos e 5% acima dos sete anos. Quanto à hereditariedade, podem ser destacados os seguintes pontos: inerência de uma predisposição fenotípica; predominância no sexo masculino; predominância nos filhos dos extremos, mais velho (40%) e mais novo (36%); a porcentagem de indivíduos gagos com histórico familiar positivo varia de autor para autor (de 23,3 a 68, 6%); se o antecedente estiver na família imediata (pais, irmãos – 51%) a probabilidade é maior, se estiver na família estendida (tios, primos, avós – 30%; ou em parentes distantes que se ouve falar – 19%) a probabilidade é decrescente, mas bastante significativa; se o antecedente for um irmão gêmeo, a probabilidade é muito alta (77%).

Barbosa & Chiari (1998) constataram que o estudo dos distúrbios da fluência da fala parece não atrair a atenção da maioria dos fonoaudiólogos. Apesar do grande número de autores estrangeiros que se dedicam a investigar a gagueira, esse campo é ainda pouco explorado pelos pesquisadores brasileiros. Além disso, há um preconceito contra a gagueira e o indivíduo “gago”, que surge do tecido social e impregna o conhecimento do senso comum, gerado a partir do padrão coletivo do comportamento. Tal preconceito não está preso apenas a uma visão distorcida sobre este distúrbio de fala, mas, objetivamente, a peculiaridades do corpo de conhecimento hoje existentes sobre gagueira, em que nem sempre é possível discriminar entre o que é influência da informação científica daquela do senso comum.

Schiefer (1999) considerou a gagueira como um distúrbio da fluência da fala, muito complexo, que afeta pessoas independentemente da idade, sexo, cultura e raça. É de difícil definição, mas a maioria dos ouvintes sabe quando alguém está gaguejando.

Schiefer, Barbosa & Pereira (1999) consideraram que, do ponto de vista motor, a gagueira é vista basicamente como uma desordem motora da fala, que se caracteriza por interrupções no fluxo da mesma, as quais se manifestam principalmente através dos sinais lingüísticos: repetições, prolongamentos e bloqueios. A quantidade de quebras na fala parece estar relacionada principalmente com a capacidade da produção da fala. Por outro lado, embora a gagueira possa ser compreendida essencialmente através dos comportamentos motores da fala, é importante reconhecer que uma variedade de fatores, principalmente os lingüísticos, parecem estar envolvidos desde o início da desordem, no seu desenvolvimento e na sua manutenção.

MATERIAL E MÉTODO

Este trabalho foi realizado com familiares de indivíduos que apresentavam gagueira como queixa principal, com o objetivo de verificar o nível de conhecimento que estes sujeitos tinham a respeito desta patologia.

Para tanto, selecionamos 15 sujeitos acompanhantes de crianças de 7 a 12 anos de idade, que foram submetidas à avaliação fonoaudiológica e diagnosticadas como portadoras de gagueira, no Ambulatório dos Distúrbios da Comunicação Humana da UNIFESP, no período de fevereiro a novembro de 2000.

Recolhemos inúmeras impressões de pais de crianças com gagueira e, a partir destes relatos espontâneos elaboramos um questionário (em anexo) com 12 perguntas, sendo 9 com respostas fechadas (sim ou não) e 3 abertas (dissertativas), que se fundamentaram no conhecimento de senso comum sobre gagueira.

A aplicação do questionário foi realizada individualmente com os acompanhantes, pais e outros familiares das crianças submetidas à avaliação fonoaudiológica, durante a 1ª sessão deste processo.

Todas as instruções sobre o questionário foram fornecidas e suas respostas coletadas pela mesma avaliadora.
Os sujeitos foram informados de que deveriam responder às questões de acordo com o que julgassem mais adequado, interessando-nos sua opinião pessoal sobre o assunto.

Visto que este trabalho foi realizado com familiares de crianças diagnosticadas como gagas e que nem todos os entrevistados eram alfabetizados, para maior confiabilidade dos dados, a própria avaliadora anotou as respostas obtidas, lendo-as em seguida aos sujeitos, para checar a exatidão do material colhido.

Os parâmetros profissão e grau de escolaridade dos indivíduos entrevistados, foram utilizados por fornecer indicadores do nível sócio-econômico da amostra, conforme recomendado por Hutchinson (1960).

O número de sujeitos utilizado neste estudo não permitiu uma análise estatística específica por sexo ou faixa etária.
A seguir apresentaremos a distribuição dos indivíduos amostrados segundo o sexo e a faixa etária.

Tabela 1. Distribuição dos indivíduos entrevistados segundo sexo e idade.

Faixa etária
Masculino
Feminino
Total
(em anos)
N
%
N
%
N
%
20 à 30
1
6,7
2
13,3
3
20,0
31 à 40
0
0
8
53,3
8
53,3
41 à 50
0
0
2
13,3
2
13,3
Acima de 50
1
6,7
1
6,7

2
13,3
Total
2
13,3
13
86,7
15
100,0

 

RESULTADOS

Apresentaremos a seguir os principais achados desta pesquisa.

Tabela 2. Caracterização da amostra segundo o nível de escolaridade dos entrevistados e sexo.

Escolaridade
Fundamental
Médio
Superiorl
Total
Sexo
N
%
N
%
N
%
N %
Masculino 2 13,3 0 0 0 0 2 13,3
Feminino 10 66,7 3 20,0 0 0 13 86,7
Total
12 80,0
3 20,0 0 0 15 100

Tabela 3. Caracterização da amostra segundo a profissão exercida e o sexo.

Escolaridade
Fundamental
Médio
Superiorl
Total
Sexo
N
%
N
%
N
%
N %
Masculino 0 0 0 0 2 13,3 2 13,3
Feminino 0 0 3 20,0 10 66,7 13 86,7
Total
0 0 3 20,0 12 80,0 15 100

Legenda:
A – Profissões Liberais
B – Cargos: gerências e direções

C – Altas posições; supervisão; ocupações não manuais
D – Posições ais baixas de supervisão; inspeção e ocupações não manuais
E – Ocupações manuais especializadas; cargos de rotina não manuais
F – Ocupações manuais semi- especializada e não especializada

Tabela 4. Caracterização das respostas obtidas na aplicação do questionário fechado.

Perg.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
Resp.
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
Sim
14
93,3
6
40
9
60
5
33,3
14
93,3
4
26,7
5
26,7
5
33,3
15
100
Não
1
6,7
9
60
6
40
10
66,7
1
6,7
11
73,3
10
73,3
10
66,7
0
0

Tabela 5. Caracterização das respostas obtidas na aplicação do questionário aberto.


Pergunta 1 – Por que você acha que seu filho é gago ?

Porque tem probl. de fala
Porque tem probl. psicol.
Total
N
%
N
%
N
%
13 86,6
2 13,3 15 100

Pergunta 2 – Você relaciona o início da gagueira de seu filho a algum fato especial ? Qual ?

Sim
Não
Total
N
%
N
%
N
%
5
33,3
10
66,7
15
100

Dos que responderam afirmativamente, os fatos desencadeantes da gagueira estão ligados a:

Causas ambientais
Causas físicas
Causas psicológicas
Total
N
%
N
%
N
%
N
%
3
60,0
1
20,00
1
20,0
5
100

Pergunta 3 – Como você acha que os outros vêem o seu filho ?

C/ probl. psicol.
C/ probl. de fala
C/ preconceito
Outras respostas
Total
N
%
N
%
N
%
N
%
N
%
3
20,0
3
20,0
4
26,7
5
33,3
15
100

 

COMENTÁRIOS

Apresentaremos a seguir a análise dos resultados obtidos a partir do estudo do questionário aplicado a 15 sujeitos acompanhantes de crianças de 7 a 12 anos e 11 meses de idade, que apresentavam gagueira como queixa principal.

Antes da apresentação dos resultados propriamente ditos, julgamos válido tecer algumas considerações com relação à caracterização da amostra e das variáveis estudadas.

Nas tabelas 1, 2 e 3, verificamos que 13 (86,7%) dos indivíduos entrevistados eram do sexo feminino, mães e avós, havendo uma maior concentração de sujeitos, 8 (53,3%) na faixa etária de 31 a 40 anos de idade.

Quanto ao nível de instrução, a grande maioria, 12 (80%) dos entrevistados possui o ensino fundamental, completo ou não, como escolaridade.

Quanto as profissões exercidas pelos sujeitos amostrados, observamos maior ocorrência, 12 (80%) de indivíduos tendo como ocupação, atividades manuais especializadas, semi-especializadas ou não especializadas e cargos de rotina não manuais (Hutchinson, 1960).

Na análise do questionário fechado em conjunto, observamos que 90 a 100% dos entrevistados demonstrou concordância com o enunciado das questões 1 – Você acha que seu filho é gago ? (Sim: 14 – 93,3%), 6 – Você acha que o nervosismo piora a gagueira ? (Sim: 14 – 93,3%) e 9 – Você acha que a gagueira tem cura ? (Sim: 15 – 100%).

Já nas questões 5 – Você acha que o nervosismo é a causa da gagueira ?, 7 – Você acha que a gagueira das crianças acontece por culpa dos pais ? e 8 – Você acha que gagueira é uma doença ?, vemos uma tendência maior às respostas negativas, visto que 65 a 75 % dos entrevistados negaram estas perguntas.

Na questão 3 – Você acha que se uma criança tiver muito contato com uma criança gaga, ela também ficará gaga ?, vemos uma leve tendência às repostas positivas, 60% dos entrevistados responderam sim e 40% responderam não.
Nas questões 2 – Você acha que a gagueira afeta a inteligência do seu filho ? e 4 – Você acha que a gagueira é um problema de família ?, observamos que, ao contrário da pergunta anterior, a maior parte dos entrevistados, 60%, respondeu negativamente, enquanto 40% considerou estas questões verdadeiras.

Analisando cada questão separadamente, observamos que quando perguntamos aos pais se achavam que seu filho era gago – pergunta 1, 14 (93,3) deles respondem afirmativamente. Jakubovicz (1986) observou que o autoconceito do ser humano é resultante das reações e avaliações das pessoas que têm um papel importante na nossa vida como: parentes, amigos, pais, colegas, empregados, patrões, etc. Muito do comportamento gago é baseado nesta avaliação. Se os pais reagem às disfluências do filho com ansiedade e rejeição, a criança vai desenvolver comportamento de luta e de evitamento, indicando que ela aceitou o julgamento.

Bloodstein (1981) afirmou que gagueira é aquilo que é percebido por um observador confiável e que possui relativa concordância com outros. Schiefer (1999) considerou a gagueira como um distúrbio da fluência da fala, muito complexo e de difícil definição, mas a maioria dos ouvintes sabe quando alguém está gaguejando.

Quando questionamos se a gagueira afetaria a inteligência da criança, 9 (60%) dos pais acreditaram que não, enquanto que 6 (40%) consideraram que a gagueira pode interferir de alguma na inteligência de seus filhos. Homzie & Lindsay (1984) afirmaram que tradicionalmente, observou-se que os gagos têm um desempenho intelectual equivalente ou levemente inferior ao de falantes normais.

Ao perguntarmos aos pais se uma criança que tenha muito contato com um adulto que gagueja conseqüentemente começará a apresentar este problema de fala também, obtivemos 9 (60%) das respostas positivas, ou seja, os pais consideraram a gagueira como um comportamento aprendido. A definição de gagueira fornecida pela Organização Mundial de Saúde (1977) e comentada por Andrews et al. (1983) é a seguinte: “Distúrbios no ritmo da fala, nos quais o indivíduo sabe precisamente o que deseja dizer, porém, ao mesmo tempo é incapaz de dizê-lo, devido a um prolongamento involuntário repetitivo ou a cessação de um som.” Como ressaltam Boone & Plante (1994), nesta definição observamos o importante qualificador da gagueira como “involuntária”.

Perguntamos também aos pais se a gagueira seria um problema de origem familiar, geneticamente herdado e a maioria, 9 (60%), não considerou esta hipótese como verdadeira. Ambrose et al. (1993) estudaram o componente genético na gagueira por meio da história familiar positiva de gagueira, principalmente em homens. Verificaram ainda que a ocorrência da gagueira foi consideravelmente maior em parentes de 1º grau, quando comparados com familiares de 2º ou 3º grau.

Quando questionamos se o nervosismo seria a causa da gagueira, 10 (66,7%) entrevistados responderam negativamente, mas, em contrapartida, 14 (93,3%) acreditaram ser o nervosismo um fator de piora para a gagueira. Brutten & Shoemaker (1967) observaram que os gagos tornam-se apreensivos quanto a gaguejar em determinadas situações particulares e a apreensão intensifica a estimulação do sistema nervoso autônomo, resultando numa ruptura da fluência. Eles acreditavam ainda que o cerne da gagueira fosse um aumento de estresse em antecipação à gagueira. Mais recentemente, Bloodstein (1981) afirmou que os problemas psicológicos dos gagos são reativos a sua gagueira e não sua causa.

Perguntamos também se a gagueira manifesta pelas crianças poderia acontecer por culpa dos pais. A maioria dos entrevistados, 11 (73,3%), considerou que não. Cox et al. (1984) pesquisaram o relacionamento entre o fator genético da gagueira e alguns fatores ambientais. Analisaram um grupo de gagos e suas famílias e não observaram diferenças significantes quanto ao nível de ansiedade e das atitudes familiares investigados nestes indivíduos. Concluíram que estes aspectos não contribuem causalmente para o desenvolvimento da gagueira.
Na amostra estudada, 9 (66,7%) sujeitos consideraram que a gagueira não seria uma doença, mas, apesar disso, 15 (100%) deles, acreditaram que este problema tem cura. Schiefer (1999) afirmou que a gagueira é uma doença fonoaudiológica caracterizada por interrupções na fala do indivíduo do tipo repetições, prolongamentos e bloqueios involuntários de sons e sílabas. Boone & Plante (1994) consideraram que aproximadamente 80% de todas as crianças que se relatou que gaguejaram, não mais o fazem após a puberdade (com ou sem terapia). Entretanto, ressaltam a importância de que a modificação direta dos sintomas seja reservada principalmente para os 20% remanescentes.
Na análise do questionário aberto, observamos na pergunta 1 – “Por que você acha que seu filho é gago ?” - que 13 (86,6%) dos sujeitos entrevistados, não tiveram dúvidas em afirmar que os filhos eram gagos porque tinham problemas na fala. Schiefer et al. (1992) afirmaram que os pais possuem muitas expectativas em relação ao desenvolvimento e crescimento dos filhos. Algumas delas relacionadas a como seus filhos irão falar projetivamente em idade escolar, não aceitando possíveis quebras do ritmo da fala como inerentes ao processo de desenvolvimento.

Alguns pais aparentemente não percebem estes tropeços normais na fala de seus filhos, enquanto que outros reagem significativamente. Uma vez que essas quebras no ritmo da fala sejam rotuladas como gagueira, a criança procurará superá-las esforçando-se para agradar aos pais. As reações emocionais evocadas por essa situação, somadas ao esforço para falar melhor, poderão interferir na sua condição motora da fala, ocasionando alterações tônicas e respiratórias, que favorecem o aparecimento dos bloqueios, repetições, hesitações e prolongamentos.
Na 2ª pergunta, “Você relaciona o início da gagueira de seu filho a algum fato especial ? Qual ?”, a maioria dos entrevistados, 10 (66,7%), não faziam esta relação e referiam que o filho havia apresentado os primeiros sinais de gagueira logo que começou a falar. Dos que mencionaram que houve um fato especial que marcou o início da gagueira de seu filho, 3 (60%) apontaram causas ambientais (imitação de personagem gago da novela, ingresso na escola, etc.) como fatores desencadeantes da gagueira, 1 (20%) referiu uma causa física (a gagueira começou depois que a criança teve um episódio de otite média secretora) e 1 relacionou o início da gagueira a uma causa psicológica (começou a gaguejar porque sentia muito a ausência do pai). Andrade (1997) afirmou que a gagueira, em termos epidemiológicos, tem o seguinte perfil: é uma patologia encontrada em todas as culturas e línguas; é mais freqüente em homens que em mulheres, numa razão mais coerentemente aceita de 3,5/1; sua taxa de ocorrência na população é de 4% e sua distribuição por idade de surgimento é de 27% até os três anos de idade, 68% entre três e sete anos e 5% acima dos sete anos. Homzie & Lindsay (1984) observaram que as implicações de descobertas como estas parecem conduzir inevitavelmente a uma base orgânica para a gagueira.

Por fim, perguntamos aos pais, como achavam que os outros viam seus filhos. As respostas foram bastante variadas, mas percebemos que 3 (20%) acreditavam que as pessoas viam seu filho como uma criança com problemas psicológicos; 3 (20%) consideravam que os outros observavam primeiramente os problemas de fala do filho; 4 (26,6%), relataram que os outros tinham preconceito em relação a seu filho, sendo este sempre motivo de gozação entre os colegas e 5 (33,3), emitiram respostas diversas que não puderam ser agrupadas, como: “Os outros vêem meu filho como uma criança decidida, como uma criança mais velha, como uma criança travessa, etc.). Barbosa & Chiari (1998) constataram que há um preconceito contra a gagueira e o indivíduo “gago”, que surge do tecido social e impregna o conhecimento do senso comum, gerado a partir do padrão coletivo do comportamento. Tal preconceito não está preso apenas a uma visão distorcida sobre este distúrbio de fala, mas, objetivamente, a peculiaridades do corpo de conhecimento hoje existentes sobre gagueira, em que nem sempre é possível discriminar entre o que é influência da informação científica daquela do senso comum. Barbosa (1991) investigou a manifestação do preconceito contra a gagueira e o indivíduo gago em estudantes de Fonoaudiologia, através de sua concordância ou não com o enunciado de 13 afirmações a respeito do assunto. Concluiu que o preconceito social contra a gagueira e o indivíduo gago também se manifesta em estudantes de Fonoaudiologia, independente do grau de informação que possuam sobre a gagueira, por basear-se no conhecimento de senso comum.

CONCLUSÃO

A partir da análise dos resultados obtidos durante a execução deste trabalho, podemos concluir que:

- a maior parte dos acompanhantes de crianças de 7 a 12 anos de idade, que foram submetidas à avaliação fonoaudiológica e diagnosticadas como portadoras de gagueira, no Ambulatório dos Distúrbios da Comunicação Humana da UNIFESP, no período de fevereiro a novembro de 2000, foram do sexo feminino, com idade entre 31 a 40 anos e que exercem ocupações manuais especializadas, semi- especializada e não especializada ou cargos de rotina não manuais.

- houve um predomínio de respostas ligadas ao conhecimento do senso comum sobre gagueira, uma vez que a maioria dos entrevistados não tem dúvida em afirmar que seu filho é gago porque tem um problema na fala, mesmo antes de ter conhecimento do diagnóstico real, consideram que a gagueira pode ser um comportamento aprendido através de imitação, acham que o nervosismo não é a causa da gagueira, mas pode piorá-la, afirmam que a gagueira não é uma doença, mas tem cura; acham que a gagueira não é um problema herdado geneticamente e que não pode afetar a inteligência de seus filhos e que o problema de fala apresentado pela criança não acontece por culpa dos pais. Referiram ainda que, em alguns casos a gagueira pode ser desencadeada por fatores ambientais, físicos ou psicológicos e que seus filhos sofrem preconceito devido a gagueira.

Assim, vemos a importância e a necessidade real de que o fonoaudiólogo seja um agente transmissor do conhecimento científico que possui a respeito da gagueira a fim de tirar desta patologia a imagem socialmente negativa que carrega, quebrando os mitos e orientando sobre as informações de senso comum que tanto prejudicam o gago e seus familiares.

Referências Bibliográficas

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SCHIEFER, A. M.; CHIARI, B. M. & BARBOSA, L. M. G. Orientação aos Pais: uma proposta de atuação preventiva na fala de crianças disfluentes. Pró-Fono, 4: 03-06, 1992.

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ANEXO

Questionário Fechado:

1. Você acha que seu filho é gago ?
( ) Sim ( ) Não

2. Você acha que a gagueira afeta a inteligência de seu filho ?
( ) Sim ( ) Não

3. Você acha que se uma criança tiver muito contato com uma pessoa gaga, ela ficará gaga ?
( ) Sim ( ) Não

4. Você acha que a gagueira é um problema de família ?
( ) Sim ( ) Não

5. Você acha que o nervosismo é a causa da gagueira ?
( ) Sim ( ) Não

6. Você acha que o nervosismo piora a gagueira ?
( ) Sim ( ) Não

7. Você acha que a gagueira das crianças é culpa dos pais ?
( ) Sim ( ) Não

8. Você acha que a gagueira é uma doença ?
( ) Sim ( ) Não

9. Você acha que a gagueira tem cura ?
( ) Sim ( ) Não

Questionário Aberto:

1. Por que você acha que seu filho é gago ?

2. Você relaciona a gagueira a algum fato especial ? Qual ?

3. Como você acha que os outros vêem o seu filho ?


1 - Taís Ciboto
Fonoaudióloga, graduada pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina e pesquisadora associada ao Departamento de Otorrinolaringologia e Distúrbios da Comunicação Humana – UNIFESP/EPM.

2 - Profª. Dra. Ana Maria Schiefer
Professora Adjunto da Disciplina dos Distúrbios da Comunicação Humana do Departamento de Otorrinolaringologia e Distúrbios da Comunicação Humana da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina.

* Artigo publicado na Revista Fono Atual, São Paulo, v. 4, n. 16, p. 31-38, 2001.